domingo, 14 de agosto de 2011

CARDUME

CARDUME


Eu conheço esse vento que veio de longe.

Foi esse vento que me trouxe a notícia

da morte de meu pai.


Vento forte que movimenta as nuvens

e traz a chuva lenta, meiga, torrencial, bruta.

Uma morte estúpida

como são todas as mortes.


A chuva que incessantemente cai

repõe as lágrimas perdidas.

Enxugamos os olhos com o dorso

de mãos pesadas

e colocamos nos dedos os anéis

dos dias da semana que não vivi com meu pai

para sempre intocados.


Foi esse mesmo vento que trouxe consigo

um cardume de memórias antigas, doentias, ancestrais.

Memórias que nadam como peixes

em mares antes calmos

e agora agitados pelas ondas do passado.


O vento, essa manifestação eólica,

uma hora para de soprar, esvanece, desaparece;

Uma hora ele sossega.


Mas a água, essa nunca cessa de cair do céu,

das nuvens, dos olhos.

Escorre e se esgueira até a soleira da porta

trazendo o cardume de peixes.

Memórias daqueles que nos deixaram

e insistem, de quando em quando, em se sentar à mesa de jantar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A RAZÃO DO POEMA

A RAZÃO DO POEMA¹

Estava eu a pensar e comecei a refletir em poemas que escrevi há algum tempo atrás. Não me pergunte o porquê, mas dois deles evocaram sua presença em minha mente. O primeiro se chama A Disciplina de um Desejo, que escrevi quando entrei na faculdade de Letras em 1985.

O argumento do poema é um amor platônico. No começo do curso, tinha eu dezenove anos, nada sabia da vida – e ainda hoje não sei muita coisa, apenas aprendi que o futuro é a morte, e que não adianta planejar que no fim tudo dá errado.

Bom, estava eu começando o curso quando me surge assim do nada uma morena chamada Heloisa Helena. Linda, muito mais velha que eu, divorciada com dois filhos e independente.

Eu incauto, apaixonei-me por ela, mas nunca tive coragem de chegar junto e convidá-la para fazer alguma coisa. Era muita mulher para um garotão como eu, então canalizei o desejo na linguagem poética e cometi esse poema que ela nunca viu, e aliás, ela nem soube que eu existi na face da terra.

Ficou o poema e o desejo latente:

DISCIPLINA DE UM DESEJO

Você vai notar que ela é muito simpática,

toda sorrisos e gosta de sentir as pessoas

enquanto conversa.

E eu, cuidadosamente, espalhava o nome dela pela cidade:

Muros, monumentos, elevadores, banheiros de cinema...

O que eu queria era o impossível,

Mas deveria haver um ponto obscuro, uma atalho, uma lacuna,

uma brecha qualquer no destino de nossas vidas

que possibilitasse um encontro furtivo

num hotel qualquer

Uma vez na vida.

Sedentos e ordinários!

Uma vez na vida e pronto!

Nunca tive jeito de fazer esta proposta.

Talvez ela nunca saiba que eu a quis.

Carrego comigo esse desejo irrequieto.

Passo por ela, sorrio, digo, ´Alô´.

O outro poema circa 1997, ´98, que foi quando cheguei a São Paulo, vindo do interior com a promessa de um mestrado na USP e nada mais. Um sonho e uma enorme cidade a descobrir. Fui morar num quarto e sala na Rua Antonio Carlos. O poema é sobre a necessidade de se tentar ir embora de uma relação doentia, e não conseguir, porque há algo maior (Carência? Medo? Insegurança? Amor? Sexo? Sei lá!) que te segura:

ALGO MAIOR QUE NÓS

Nós tínhamos uma pele gostosa,

uma vida amorosa muito louca.

Doidos por sexo, mal conseguíamos sair daquele apartamento.

Uma vontade louca que não passa.

Um tesão que não se acaba!

A gente então se entrega ao risco.

Arrisca a pele, perde o rumo, o sentido das coisas.

Só encontra sentido na desorientação.

A gente quer se explodir, e não consegue.

Quer enlouquecer de tanto amor,

Mas o amor é tão breve.

Quer se conter, mas não sabe como.

Quer se livrar da paixão,

mas não quer que ela acabe,

pois o tesão é grande demais

e se expande feito um gás que respiramos;

tornando o que fazemos

muito maior do que realmente somos.

O bonito de tudo isso é perceber a atemporalidade do escrito poético. Escrevi os dois poemas há algumas décadas, mas até hoje o sentimento pulsa e é verdadeiro. Isso prá mim é viver.

E a vida é mais ou menos assim, momentos, alguns ficam por anos e perduram, outros passam, o que me lembra uma outra poesia que escrevi, mas isso é outro papo, outro dia, um outro momento.

Por isso não conte a sua vida pelos anos que já passaram, e nem fique ansioso pelos que irão vir. VIVA! Isso já é o suficiente e complicado, como eu disse uma certa vez, não faço projetos futuros, a vida em si é um projeto que não se conhece muito bem.

_____________________

1. O título do texto foi retirado da obra homônima de José Guilherme Merquior, diplomata falecido na década de 80. Merquior foi um excelente crítico literário tendo uma coluna sobre literatura, no finado Jornal do Brasil, e também foi acusado de ter contribuído com a ditadura militar na década de 70 e, o senador e ex-presidente Fernando Collor, plagiou seus textos em discursos, mas isso não diminui a importância do autor.. Quem desejar saber mais sobre o livro siga o link abaixo:

http://www.fflch.usp.br/dlcv/vcamilo/fal%EAnciadapoesia.pdf

domingo, 24 de julho de 2011

SUNDAY MORNING

SUNDAY MORNING

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

VINICIUS DE MORAES in O Dia da Criação.

Acordei cedo, seis e quinze de uma fria manhã de domingo, seria muito gostoso ficar enrolado na cama, debaixo de um edredom quentinho, encaixado na pessoa amada. Mas ela não está. Levantei-me, desci até a entrada do prédio e peguei o meu exemplar da Folha de São Paulo de domingo – Amy Winehouse is dead!

Volto ao apartamento, ao quarto de dormir, a cama ainda aquecida e doída da ausência da minha amada. Abro as cortinas e deixo a claridade do domingo que se anuncia. O dia amanhecia, ´se quebrava´ (adoro a expressão daybreak pra dizer amanhecer. A idéia do dia estar ´se quebrando pra começar um dia é muito poética. Assim como na canção dos Beatles For No One, “Your day breaks, your mind aches, There will be times when all the things she said will fill your head, You won't forget her”; Seu dia nasce, sua mente dói, Haverá um dia em que todas as coisas que ela disse encherão a sua cabeça, Você não conseguirá esquecê-la); iluminando a escuridão do meu quarto de dormir.

Tenho o hábito e prazer me ler jornais assino regularmente a Folha de São Paulo, e nos finais de semana, além da Folha, leio o Estado de São Paulo e O Globo. (Aí você indagaria, por que ler um jornal do Rio se você mora em São Paulo? Bom tem o bairrismo, tem a qualidade dos colunistas cariocas, haja vista os cronistas que escreviam em jornais cariocas – Vinicius de Moraes, Rubem Braga, Clarice Lispector e por aí vai. Mas eu gosto de duas coisas no jornal O Globo, uma delas é um suplemento literário chamado Prosa & Verso que vem aos sábados e a outra é a Revista do Globo que vem aos domingos – isso me basta pra fazer com que eu saia da minha casa e compre o jornal. E ao ler um jornal do Rio, tem o devaneio: devaneio de estar caminhando no calçadão, indo do Arpoador ao Leblon com a brisa marítima a soprar no meu rosto; estar num quiosque em Ipanema a comer empadas e beber um chope; estar sentado no calçadão do Leblon e ver globais, morenas, biquínis, bicicletas, cães, patins, mãos e pernas, coxas e bundas a desfilar...devaneios.)

Volto à cama, enrosco-me no edredom e leio, avidamente e rapidamente, o jornal de domingo. Nada de novo. Nada de bom, mas a leitura é necessária, a leitura é um vício!

Tomo um banho, visto-me e desço mais uma vez pra compar pão e o jornal o Globo.

Moro em Santana (Já morei perto da Paulista, perto dos Jardins, perto do glamour – se é que se pode se chamar de glamour a rua Frei caneca esquina com a Peixoto Gomide; mas cansou! Uma hora tudo cansa! O casamento, amigos, o emprego, os mesmo locais, o barulho, os beijos e abraços, a muvuca de sexta-feira noite, a rua imunda sábado de manhã pós-festa, pós-raves, pós-clube da Louca, pós-balada, pós-apocalipse...pós tudo!

Mudei! Uma hora as mudanças têm que acontecer, senão você pira! E você bem sabe, as mudanças têm o seu preço, está disposto a pagar? Sair de sua zona de conforto? De sua acomodação? Are you willing to do it? Eu lhe digo, vale a pena pagar o preço!)

Ao sair do prédio um vento frio acaricia-me o rosto como uma navalha a rasgar a carne. A rua vazia, os mendigos e desabrigados de sempre vagam a esmo pela rua vaga e silenciosa. A rua abre-se como um caderno com suas páginas em branco prontas pra receber o texto que você vai escrever para o seu domingo.

Compro o jornal numa pequena banca localizada na Voluntários esquina com a Leite Morais e os pães compro uma pequena padaria na esquina da rua onde moro. Invariavelmente está saindo uma fornada nova de pães. Volto ao meu apartamento com um saco com três pães franceses quentinhos, e não há anda melhor do que cortar um pão quentinho, passar manteiga e vê-la derreter, hummmmm....

Volto a casa, preparo um simples breakfast – pão com manteiga e chá de camolmila; e o domingo já se iniciou. Estou só, mas não sozinho e largado no mundo. A vida é o que você faz com ela, com o que ela lhe propicia. Aproveite o seu dia, sozinho, acompanhado, mas aproveite; estar vivo já é uma benção extraordinária! Ame as pequenas coisas, Deus está nos detalhes. Mastigue a água que você bebe, tem algum sabor? Não, mas mata a sua sede.

Um bom domingo e lembre-se, impossível não há.

*Pra quem gosta aí vão os lyrics de For No One dos Beatles e o link do vídeo no You Tube numa interpretação de Caetano Veloso:

http://youtu.be/8g3AZf-d9kM

For No One

Your day breaks, your mind aches,

You find that all her words of kindness linger on,

When she no longer needs you.

She wakes up, she makes up,

She takes her time and doesn't feel she has to hurry,

She no longer needs you.

And in her eyes you see nothing,

No sign of love behind the tears cried for no one,

A love that should have lasted years.

You want her, you need her,

And yet you don't believe her,

When she says her love is dead,

You think she needs you.

And in her eyes you see nothing,

No sign of love behind the tears cried for no one,

A love that should have lasted years.

You stay home, she goes out,

She says that long ago she knew someone but now,

He's gone, she doesn't need him.

Your day breaks, your mind aches,

There will be times when all the things she said will fill your head,

You won't forget her.

And in her eyes you see nothing,

No sign of love behind the tears cried for no one,

A love that should have lasted years.

Para Ninguém

Seu dia nasce, sua mente dói,

Você descobre que todas as coisas gentis que ela disse,

Não fazem mais sentido.

Ela acorda, ela se maquia

Ela não tem pressa,

Ela não precisa mais de você.

E nos olhos dela você não vê nada,

Nenhum sinal de amor atrás das lágrimas choradas por ninguém,

Um amor que devia ter durado anos.

Você a quer, você precisa dela,

No entanto você já não acredita nela

Quando ela diz que seu amor já morreu,

Você pensa que ela precisa de você

E nos olhos dela você não vê nada,

Nenhum sinal de amor atrás das lágrimas choradas por ninguém,

Um amor que devia ter durado anos.

Você fica em casa, ela sai,

Diz que a muito tempo conheceu alguém mas agora

Ele se foi e ela não precisa dele.

Seu dia nasce, sua mente dói,

Haverá um dia em que todas as coisas que ela disse encherão a sua cabeça,

Você não conseguirá esquecê-la.

E nos olhos dela você não vê nada,

Nenhum sinal de amor atrás das lágrimas choradas por ninguém,

Um amor que devia ter durado anos.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

FAZENDO ARROZ

FAZENDO ARROZ

“[...] a obra, no que tem de significativo, é um todo que se explica a si mesmo, como um universo fechado. Este estruturalismo radical [...], é inviável no trabalho prático de interpretar, porque despreza entre outras coisas a dimensão histórica, sem a qual o pensamento contemporâneo não enfrenta de maneira adequada os problemas que preocupam.”

ANTONIO CANDIDO in `Literatura e Sociedade´.

Recentemente me separei pela segunda vez. Acabei com o meu segundo casamento. Sim, pode me execrar, falar mal de mim, exaltar essa instituição chamada casamento (pode não parecer, mas eu acho que casar é uma boa, isso se você achar a pessoa certa e adequada aos seus instintos e manias, mas isso é papo pra outra crônica); falar que tem que se manter a estabilidade de um casal a qualquer custo, que não pensei nos filhos, blá blá blá. Pronto? Falou tudo que queria?

Ok,vamos em frente! Como estava a dizer recentemente me separei e estou vivendo uma vida de solteiro. Aos poucos começo a adquirir minha independência – é nesse ponto que as mulheres, as esposas, mães erram, nessa necessidade matriarcal de criar homens dependentes da figura feminina. Não sei se algo feito intuitivamente ou de propósito, ou seja, para dominar mesmo o sujeito, tê-lo sob seus pés ou como já ouvi por aí: ´comendo na minha mão!´.

Bom, cada um, cada um. Se as pessoas acham que amor se confunde com posse e dominação, fazer o que, né? Mas depois não venha me reclamar que seu marido é um bebê chorão, um mandão, que não faz nada sem a sua presença, e quando você quer que ele lhe acompanhe em algum programa, tem jogo do Corinthians na TV e ele não pode perder.

Pessoas são diferentes. Tem gostos, ideologias, vontades, desejos, aspirações e necessidades que são pessoais, de cada um. Não adianta impor sua vontade, não adianta querer mandar no ego do outro, porque uma hora ele vai escapar, como areia por entre seus dedos. Independência entre os membros de um casal é saudável.

Eu, nesse novo momento de minha vida, estou adquirindo pouco a pouco a minha independência. Fui casado durante dez (!?) anos com uma mulher dominadora, castradora que não permitia que me aventurasse nos afazeres domésticos. Eu achava que nunca conseguiria fritar aipim ou lavar uma camisa de tão intrincado que o processo se mostrava pra mim. Agora, dentre as personas que em mim habitam, estou deixando aflorar mais uma, ´dono de casa´.

Lavo e passo minhas camisetas, camisas, calças, cuecas, toalhas, roupa de cama; vou à feira compro tomates, batatas, ovos, cenouras, couve-flor, cebola, alho, tangerinas, maças e encerro o tour com um pastel, em pé, na barraca do japonês. Estou aprendendo a cozinhar – descobrir sem pressões ou cobranças esta nova faceta em mim está sendo bom, está sendo terapêutico. Saber que você é capaz de sempre se reinventar é um sinal da capacidade que o ser humano tem de superar a si próprio e as suas expectativas.

Por enquanto minhas aventuras na culinária se resumem ao trivial – ouvi dizer que ao conseguir fazer um arroz e um feijão caprichados, você está habilitado a alçar voos mais altos e audazes.

Posso fritar um aipim, fazer um pastel de queijo, montar uma bela salada, temperar e fritar um bom filé de frango, mas havia algo que demorei a acertar, arroz. Das coisas simples de se fazer na culinária, fazer arroz mostrava ser, ao menos pra mim, algo simples e complicado ao mesmo tempo. Fazer arroz é simples:

1°) Pegar um dente de alho e esmigalhar, com casca e tudo, com o cabo de uma faca, coisa de macho!;

2°) Esquentar um pouco de óleo numa pequena panela, jogar o alho esmigalhado e deixar dourar. Retirar o alho, como dizem os mineiros, ´casca o aí, quenta o ói, joga o ái no ói!´;

3°) A medida de arroz pra uma pessoa é um copo, de água são dois copos e meio;

4°) Enquanto você está esmigalhando o alho, colocando o óleo pra esquentar, dourando et cetera et al; esquente no microondas a medida de água por uns 4 minutos;

5°) Pegue a medida de arroz e coloque no óleo onde você dourou o alho. Misture e coloque sal a gosto – experimente a água pra ver se está bom de sal. Tampe e deixe secar a água.

Simples, não?

Pois o primata aqui queimou três ou quatro panelas de arroz, colocou sal demais, óleo demais, até que consegui! Fiz um arroz decente.

Para quem está acostumado a cozinhar pode até dizer, e daí? E daí, nada; mas para quem está em busca de sua independência, de sua liberdade; em busca de um novo caminho na vida, é tudo!

Não pense que a vida é algo hermético, um universo fechado a toda e qualquer mudança. A vida tem esse conceito de organicidade, de ser um organismo vivo que reage aos fatores externos que a condicionam e motivam.

O caminho para felicidade é simples. Aceite o novo, aceite que a sua vida pode mudar. Abrace as oportunidades que surgirem em seu caminho. Não se apegue as coisas materiais, porque no fim é só dinheiro – it´s just money. Mergulhe dentro de si, dentro do seu ego, do seu interior e caia sem redes de segurança. Tenha paciência consigo mesmo, tudo leva tempo e tudo a seu tempo.

Ser feliz, às vezes, pode ser tão simples como se fazer um bom arroz.