domingo, 28 de novembro de 2010

ORA et LABORA

ORA ET LABORA

“[...] falo aos homens e às mulheres do mundo contemporâneo, sem tempo, sempre com pressa e sem tempo, com pressa e fazendo contas; falando ao celular, enquanto fazem contas, correndo; assim como insetos assustados que correm em busca do repouso oferecido pela sombra e pelo esquecimento. E no futuro, sonhando com a vida silenciosa na forma de pedra. Uma pedra que pressente a divindade.”

LUIZ FELIPE PONDÉ in “Contra um mundo melhor- Ensaios do afeto”.

Fique agora aqui ao meu lado.

Olhe ao longe e escute o som

da maré subindo

subindo

subindo....

Espere chegar o momento certo

Para descer da rocha

E silenciar o pranto.

Ser como o silêncio da pedra eterna.

Orar como ela dia após dia.

Entoar loas, lamentos de saudade

e sofrer só pelo que deve ser sofrido;

A vida não exige mais do que isso.

Espere

e ore em silêncio.

O amor sabe o que tem que ser feito

para poder ficar.


* Para N., até o fim da minha vida eu sempre irei te amar; mais e melhor a cada momento.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

AROMAS NÃO DEVEM SER EXPLICADOS

AROMAS NÃO DEVEM SER EXPLICADOS

Alguém poderia me dizer

como descrever o cheiro de terra molhada

depois de uma chuva de verão?

O cheiro da manga rosa cortada.

Da pêra mordida com seu suco a escorrer pelos lábios.

O aroma do orvalho ao primeiro sinal da manhã.

Como descrever o cheiro de maresia

que gruda na pele como uma tatuagem de verão?

Tente me dizer o que é sentir o cheiro da roupa lavada pela mãe

da rosa ainda em botão;

da tinta que forma as palavras no papel;

da cabelo longo, liso lavado com xampu de jojoba;

do vento que anuncia a tempestade que vai chegar.

Se alguém souber, por favor, diga-me como colocar isso

em palavras, frases, expressões.

E como dizer do aroma mais fundo,

mais profano e mais fecundo.

Aquele que sai do meio, da genitália, do púbis sedento

da mulher amada.

Aquele cheiro que desperta a paixão, o animal contido,

inebria e libera o descontrole

a violência, o dente que morde com mais vontade,

o vai e vem mais rápido, o quadril

que se mexe com mais ardor e velocidade

para o gozo logo chegar e nunca se acabar.

A mão fica mais pesada

e deixa marcas roxas nas coxas largas

de mulher que quer o gozo e o busca sem pensar.

Como descrever tudo isso?

Aromas são impossíveis de serem explicados

É algo simples como respirar:

Inalar, segurar o momento, exalar.

Simples como amar.

* Para N., pois depois que senti o aroma de seus meios nunca mais fui o mesmo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A NOITE MAIS ESCURA E DENSA

A NOITE MAIS ESCURA E DENSA

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...

[...]Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas...

CAETANO VELOSO in “Terra”

Na noite mais escura

e densa da minha alma,

eu estava sozinho na minha cela

lendo um livro.

Virava lentamente as páginas

e aos poucos comia as letras,

as palavras, as frases, os parágrafos

e formava imagens na minha mente:

“A rua Post estava vazia quando Spade saiu. Andou um quarteirão na direção leste, atravessou a rua, andou dois quarteirões, pelo lado oposto..”.¹

Na solidão da minha cela

lia e imaginava como seria a vida lá fora:

- Sol no rosto.

Cheiro de fumaça de escapamento.

Calçadas entupidas de pessoas.

Barulho de buzinas.

Nuvens se esparramando pelo céu...

Eu lia e cada vez mais

ficava deprimido.

Deprimido com o silêncio,

com a fraca lâmpada que mal iluminava

as páginas do livro, as paredes

secas, nuas e cruas

assim como o seu coração.

Na noite mais escura

e densa de minh´alma,

eu estava sozinho na minha cela

lendo um velho romance policial

E os fantasmas do meu passado,

aqueles que não consegui enterrar;

Faziam fila no corredor

para de novo me assombrar.

Na noite mais escura

e densa de minh´alma,

eu estava sozinho na minha cela

com um velho livro na mão.

E você,

você que eu tanto amo e necessito,

você não estava lá.

*Poesia escrita dia 21/09/2010, um dos dias mais tristes da minha vida.

__________________

1. HAMMET, Dashiel (1984) “O Falcão Maltês”; trad. de Ruy Castro. RJ:Brasiliense.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A DANÇA SELVAGEM DO AMOR

A DANÇA SELVAGEM DO AMOR

E eu pensava no marasmo,

na letargia que nos dominava

depois do orgasmo.


Era quase um balé, uma dança selvagem e cadenciada

que finalizava com uma dormência,

uma dormência no baixo-ventre da namorada.


E ela se deitava sobre meu peito

grisalho de homem velho e mal amado.

e ela sussurrava que, às vezes, o amor é perfeito.


E ali, naquele pequeno quarto,

havia um silêncio quieto, pesado

e o universo cabia bem ali num abraço.


*Para N., sempre!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

ODE A PRIMAVERA

ODE A PRIMAVERA

Nesses dias em que nada funciona
e uma moça simples, quase ingênua, anda remexendo as ancas

De dor, de medo, uma coceira no púbis;
Tesão!

Tentar contornar isso tudo, esses sinais, essas cruzes
é como caminhar tateando na escuridão.

Nessas tardes em que o cansado sol se põe no Arpoador,
uma moça claudica, manca de tesão, da vontade do amor.

O sol cai alaranjado entre pescadores que lançam ao mar os seus anzóis;
ela, a moça, lenta caminha, seguindo em direção ao labirinto dos lençóis

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O SILÊNCIO

O SILÊNCIO

The silence depressed me. It
wasn´t the silence of silence
It was my own silence*
SYLVIA PLATH in `The Bell Jar.´

Vem, meu menino,
encoste a sua cabeça
no meu peito
e deixe-me te abraçar
e embalar a sua trsiteza.

Eu sei meu menino,
que você ficou triste
que você tem estado triste.
e que a vida não é bem
o que lhe contaram
Mas agora deixe as lágrimas rolarem
rolarem
rolarem...

Agora, meu menino
a noite é jornada escura.
É um silêncio sem ecos,
sem abraços, sem uma nota musical.
Agora a noite é surda e brutal!
Uma imensa noite de silêncio total.
E esse silêncio mora dentro de você, meu menino.

Vem meu menino,
agora você já chorou suas trsitezas e mágoas.
A jornada continua - ela tem que continuar!

Negra é a noite
que diante de seus olhos se exibe.
Uma trilha que não leva nada a lugar nenhum.
Nada nunca leva a nada.

Vem meu menino,
amanhã isso tudo também pode passar.

*Com carinho para N.

___________
* O silêncio me deprimia. Não era o silêncio do silêncio. Era o meu próprio silêncio; tradução livre.