domingo, 13 de junho de 2010

MEET ME IN THE MORNING

MEET ME IN THE MORNING¹
I haven't come to be a stranger
I haven't come to break your home
I haven't come to harm your children
I've come to be your love*
Everything But the Girl

* Eu não vim para ser um estranho
Eu não vim para quebrar sua casa
Eu não vim para prejudicar seus filhos
Eu vim para ser o seu amor


Naquela hora em que a escuridão da madrugada ainda não se foi, ainda está bem friozinho e o dia vai se ´quebrando²´ aos poucos formando uma faixa laranja no horizonte.
Nessa hora vá ao meu encontro. Eu vou lhe chamar, e onde quer que você esteja vá ao meu encontro, me abrace forte e sussurre em meu ouvido que eu sou somente seu e de mais ninguém.
Eu vou lhe chamar. Largue tudo! Esqueça os seus horários, o ponto a ser assinado na firma, a praia que promete acontecer nesse domingo, o jornal a ler, o pão de queijo do café da manhã.
Esqueça tudo isso e apenas atenda o chamado e vá; simplesmente vá, pois você é meu amor, é o amor a lhe chamar, a lhe querer, e lhe desejar; desejar você dentro de mim, ereto, eterno, rígido, só meu. E lento o gozo virá em camadas. Espesso no inicio, depois borbulhante e com tremores a me cobrir das pernas a cabeça. Uma fina malha de gemidos e tremores tomará conta de mim e fluidos vão escorrer pelos meus meios.
Venha, meu menino, eu não vou quebrar o seu coração, confie em mim, sei que você tem medo, que você já passou por isso antes, mas dessa vez pode vir, é de verdade.
Venha, não importa se as pedras são pesadas e difíceis de se carregar.
Venha enquanto o orvalho da manhã está ainda úmido na flor aberta.
Venha, seja o forasteiro a desvendar esses terrenos ainda escondidos.
Venha, o sol se reflete nas janelas dos edifícios, nas janelas dos carros e pouco a pouco a luz vai surgir.
E o dia vai nascer.
A escuridão se dissipará lentamente e eu vou lhe esperar enquanto este péssimo capuccino esfria na xícara a minha frente.

*com todo carinho para N.



NOTAS:
1. Este texto foi inspirado numa epifania ao ouvir a música Meet Me In The Morning do grupo inglês Everything But The Girl:

Watch the vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=qpH2T9-T1VI

Meet me in the Morning EVERYTHING BUT THE GIRL
Meet me in the morning
I'll have the motor running
Down icy lanes, under a glass blue sky
This is living
This is living
I haven't come to be a stranger
I haven't come to break your home
I haven't come to harm your children
I've come to be your love
Don't let the grass grow under your feet
The sands of times keep running
For now at last I'm down on the street
With the engine running
Meet me in the evening
I'll have the log fire burning
Down frosty lanes, under a darkening sky
This is living
This is living
I haven't come to be a stranger
I haven't come to break your home
I haven't come to harm your children
I've come to be your love

ENCONTRE-ME PELA MANHÃ
Encontre-me no período da manhã
Eu vou ter o motor em funcionamento
Descendo pistas de gelo, sob um céu de vidro azul
Isso é viver
Isso é viver
Eu não vim para ser um estranho
Eu não vim para quebrar sua casa
Eu não vim para prejudicar seus filhos
Eu vim para ser o seu amor
Não deixe a grama crescer sob seus pés
As areias do tempo continuam correndo
Por agora, finalmente, eu estou na sua rua
Com o motor em funcionamento
Encontre-me na noite
Eu vou ter o fogo queimando na lareira
Descendo pistas de gelo, sob um céu de vidro azul
Isso é viver
Isso é viver
Eu não vim para ser um estranho
Eu não vim para quebrar sua casa
Eu não vim para prejudicar seus filhos
Eu vim para ser o seu amor


2. Há certas coisas que são bem melhores ditas na língua inglesa. Adoro a expressão, `the ´day is breaking´; que não fica bem traduzida em português, mas quis usar essa expressão ipsis literis no texto pra dar um encantamento melhor ao amanhecer.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

SLIDING DOORS

SLIDING DOORS

O Amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
GILBERTO GIL in “Drão”

Há um filme com a Gwyneeth Paltron chamado “Sliding Doors”, em português o título ficou “De Caso com o Acaso”. Não é, obviamente, a tradução ipsis literis do título original em Inglês; sliding doors, seriam aquelas portas que se abrem automaticamente quando entramos em um shopping center, aeroportos e outros lugares afins.
O filme é si é uma comediazinha romântica meio bobazinha, mas a releitura que se pode fazer com o argumento proposto por ela é até interessante. No filme Paltrow faz uma relações públicas que tem um emprego numa companhia, mora com o namorado e vai ao trabalho de metrô – aí é que entram as sliding doors do título. Pois bem, numa manhã, normal como todas as outras, ela sai de seu apartamento e vai trabalhar deixando o seu namorado no apartamento. Ao chegar ao seu emprego, ela descobre que foi despedida e retorna para casa, pegando novamente o tube de Londres. Nisso o seu namorado a está traindo, no seu próprio apartamento, com outra mulher.
Ao tentar pegar o trem do metrô, acontece uma mágica. Ela é dividida em duas pessoas, uma que consegue pegar o trem e flagrar o namorado com outra e mudar totalmente o seu destino, encontrando um novo namorado, mudando o seu corte de cabelo, abrindo a sua própria empresa de relações públicas e acaba se tornando uma mulher bem sucedida. A sua contraparte, a que não consegue pegar o metrô, não flagra o seu namorado na cama com outra, tenta se sustentar entregando sanduíches e continua morar com o mesmo namorado que a continua traindo. O desfecho do filme não é assim tão emocionante, mas eu posso te adiantar que uma delas morre, e consegue ficar com outra pessoa totalmente diferente.
São os acasos da vida, as portas abrem e fecham sem que nos demos conta e façamos nossas escolhas de vida. Eu, por exemplo, quando saio do meu emprego sempre faço o mesmo trajeto: subo direto a Haddock Lobo, viro a Paulista, pego o metrô e vou-me embora, mas, o que subitamente me faria virar a esquina na Alameda Franca e dar de cara com o amor da minha vida? Uma porta que se abriu para propiciar um momento para que eu fizesse a minha escolha? Ou voltando de um clube num domingo de carnaval entrar na minha caixa postal ao chegar em casa e ler uma mensagem que modificaria a minha vida. Teria sido melhor que eu não a encontrasse a pessoa e a mensagem? Não sei.
Paulo Coelho nos diz que devemos prestar atenção nos sinais que estão a todo o momento a nossa volta, mas nunca estamos abertos o suficiente para percebê-los. Ele conta uma história sobre uma santa a qual ele fez uma promessa e o número de coincidências que o levaram a promessa a se realizar, e como ele pagou essa mesma promessa. Em um de seus livros, Coelho diz que “Certas bênçãos de Deus, chegam estilhaçando as janelas.” Às vezes não se percebe que ao quebrar todas as vidraças, janelas e vitrines existentes na vida, algo pode mudar.
As mudanças acontecem dentro de um processo lento. São mágoas que remetem a infância, a relação com a mãe, a infância muito isolada, é uma gama de fatores que, às vezes pensamos que não estamos a chegar a lugar nenhum, mas o caminho se faz ao caminhar. As mudanças ocorrem, em parte devido à força de vontade em se aprender a ser uma pessoa mais acessível, melhor; outras vezes porque as coisas são assim e tem que acontecer independente da própria vontade.
Por isso ´não se afobe não, pois nada é pra já´*, Cada um sabe o que tem dentro de si, você sabe o que você tem, por isso não apresse o rio, ele corre sozinho. Deixe a mão do destino atue em sua vida, e faça com que você vire uma esquina qualquer, abre sua caixa postal ou que uma sliding door se feche em sua cara e deixe o futuro e o amor de sua vida entrarem definitivamente em sua jornada.











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 Música incidental Futuros Amantes, Chico Buarque.

domingo, 28 de março de 2010

PRA CADA SITUAÇÃO HÁ UMA CANÇÃO

PRA CADA SITUAÇÃO HÁ UMA CANÇÃO

Uma canção que me faz lembrar minha juventude em Campo Grande é Nada Mais. Eu era muito tímido, mais do que sou hoje em dia, e eu me lembro que ia a festinhas quando o meu irmão liberava a velha Brasília herança de meu pai, além de ´ régua e compasso´¹.
Eu, naquela época, em minha a imatura mente de garoto de vinte anos, acreditava que por estar motorizado conseguiria ter sucesso com as meninas, porém, isso não acontecia. Invariavelmente voltava para casa sozinho e arrasado! E me perguntava:
Será que sou muito feio?
Tenho mau hálito?
Meu papo é chato?
Sou grudento?
Por que não consigo uma menina?
E isso me lembrava de uma canção do grupo britânico The Smiths:

If you´re so very entertaining
Why are you on your own tonight?
If you´re so terribly good looking
Then why do sleep alone tonight?²
´I Know it´s over´Morrisey & Mars.

Mas isso é uma outra história que eu já contei.
E num desses meus solitários retornos de festas, lá vinha eu, sozinho, descendo a avenida Afonso Pena, na velha Brasília que havia sido de meu pai. Três da manhã, a cidade deserta e os espíritos errantes se arrastavam pela madrugada esperando o cantar do galo que, dizem, envia as almas sem luz de volta ao buraco de onde vieram.
Decidi então ligar o rádio do carro pra escutar uma música. Sintonizo na FM Canarinho – naquela época Campo Grande tinha três estações de rádio FM, e eu gostava mais da FM Canarinho.
O carro é inundado pela voz da Gal Costa “...vão dizer que são tolices que podemos ser felizes, mas tudo que eu sei..”; a canção era Nada Mais uma versão da
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1. Aquele Abraço Gilberto Gil.
2. Se você é tão divertido, porque está sozinho hoje a noite. Se você é tão bonito assim, porque dorme sozinho hoje a noite?

música Lately de Stevie Wonder.
Eu, naquele momento de solidão, uma solidão enorme, bruta, juvenil, isolado numa cidade no centro do Brasil, descendo sozinho uma solitária avenida numa velha Brasília de meu falecido pai; inserido nesse contexto eu me senti o último homem da face da Terra!
Por quê? Porque não conseguia uma namorada? Eu me visto mal? Não danço bem? Sou agressivo no meu approach? Onde estava o erro eu me indagava e me angustiava.
Eu era, e ainda sou um animal romântico e sonhador. Não sabia, e nem sei até hoje, como paquerar e ´chegar´ numa garota. Minha conversa era muito didática e os assuntos eram monótonos. As meninas queriam um ´cara´ mais agressivo, mais brutalizado, mais rude e com uma conversa básica.
Nunca fui esse tipo de ´cara´. Não sou esse tipo de ´cara´. E por isso sofria, e ainda sofro.
Cresci, não teve outro jeito, era inevitável. Livrei-me de alguns traumas, arranjei outros tantos. Casei, separei, tive filhos, enfiei o pé na jaca, apaixonei-me muitas vezes pela garota errada e virei o que eu era destinado a ser, mas aquele garoto de vinte e poucos anos continua a subir e descer a avenida às três da manhã, solitário depois da festa ainda tentando descobrir como se faz para se ganhar uma namorada.

Nada Mais
Sinto quando alguém te interessa
Mesmo quando finges que não vês
Se desapareces numa festa, eu já sei
Não te quero ouvir falar do tempo
Se eu só pergunto onde vais
Mas se quiser saber se voltas logo
You Don’t know, nada mais
Vão dizer que são tolices
Que podemos ser felizes
Mas tudo que eu sei
Não dá prá disfarçar
Desta vez doeu demais
Amanhã será jamais
Onde a gente vai tem uns amigos
Que você precisa visitar
Se não sou feliz são só ciúmes, nada mais
Mais de uma vez flagrei seus lábios
Na intenção do nome de outro alguém
Mas se quiser saber porque eles calam
Você diz: -”Tudo bem”
Vão dizer que são tolices
Que podemos ser felizes
Mas tudo que eu sei
Não dá prá disfarçar
Desta vez doeu demais
Amanhã será jamais
(Ronaldo Bastos e Stevie Wonder)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

MÚSICA

MÚSICA

Quero ouvir agora uma triste canção. Uma canção de amor que falasse sobre um amor não correspondido. Um pouco de Piaf, Ainda é Cedo do Legião Urbana e ao fundo aquele saxofone triste do Kenny G.
Uma canção que falasse da dor, do sofrimento, da falta que ela me faz, de como eu a amava e de como ainda a quero.
Uma canção que fale do outono em Paris, de uma paixão inesquecível em Florença, de um longo adeus, de uma doença incurável: amor. Uma canção que diga assim, ´and though I didn´t say that I Love I do, Carly I do love you.´
Queria uma canção que me dissesse que amanhã será um novo dia e certamente eu vou ser mais feliz. Uma canção que falasse da linha e do linho e de Lúcia num céu com os diamantes e que assim, de repente, ouvindo essas canções, meus problemas desparecessem.
Agora é tarde.
Agora é noite e uma chuva fina cai lá fora. Acendo uma vela no quarto para iluminar a escuridão de nossas vidas. A penumbra, a chuva caindo sobre o meu telhado, o silêncio; e no ar um som de violinos entristecendo a vida.

Setembro de ´92.

domingo, 31 de janeiro de 2010

I KNOW IT´S OVER

I know it´s over do álbum The Queen is Dead do grupo de rock inglês The Smiths é uma das canções que fizeram minha cabeça na década de 80. O disco é de 1986, tinha eu vinte anos e morava em Campo Grande. A vida era boa, amigos, festas (ainda não existia o termo baladas) nos finais de semana e zero de preocupação...é, às vezes a vida é bela.
Sempre fui tímido e tive um certo problema em chegar nas meninas – aliás, tenho isso até hoje. Uso uma aproximação muito intelectual, o que invariavelmente não dá em nada, pois não se entende o que estou a dizer, e o meu discurso, quase sempre resvala no recorte didático.
Bom, I know it´s over é uma canção muito depressiva. O grupo The Smiths é um grupo muito depressivo e o poeta e letrista da banda, Morrisey, escrevia letras para as canções do guitarrista Johnny Mars que faziam sempre apologia ao suicídio.
A primeira linha da canção já faz uma alusão a uma pessoa sendo enterrada:

Oh, Mother, I can feel the soil falling over my head
(mãe, posso sentir a terra cobrindo minha cabeça)
E a depressão e a tristeza continuam sempre com imagens de dor e mutilação:

See, the sea wants to take me
The knife wants to cut me
Do you think you can help me?
(o mar que me levar / a faca quer me cortar / será que você pode em ajudar?)

Eu adorava, e ainda adoro os Smiths. E hoje, olhando um pouco para trás, vejo que sempre houve uma relação muito íntima entre o adolescente que fui e as bandas de rock inglesas – Rolling Stones, The Cure, The Clash, The Who; e hoje em dia sou professor de literatura inglesa...coincidências?
Mas, retornando a minha juventude, minha timidez e meus problemas com as mulheres. Quando eu ia às festas, regularmente eu retornava sozinho à casa materna. E numa noite dessas de novo voltando solitário lá pelas três da manhã quando começa a tocar no rádio Kremlin de Djavan com interpretação de Gal Costa...mas esta é outra história.
E nesses retornos solitários das festas eu ficava a me indagar, ´Por que não tenho namorada? Se eu sou um cara simpático, bonito, inteligente, por que sempre estou sozinho?´, coisas de adolescente; e essa canção tinha o poder de descrever exatamente o que eu sentia naquele momento então:

If you´re so funny
Then why you´re on your own tonight?
And if you´re so clever
Why are you on your own tonight?
If you´re so very entertaining
Why are you on your own tonight?
If you´re so terribly good looking
Then why do you sleep alone tonight?
(se você é tão engraçado / então, porque você está sozinho hoje a noite? / e se você é tão inteligente / porque você está sozinho hoje a noite? / se você é tão bonito assim / por que você dorme sozinho hoje a noite? /

Esse era o meu espírito pós-festas, mas se eu soubesse o que sei agora, saberia que nós podemos muito menos do que aquilo que pensamos poder, e que a soberba é algo muito destruidor. Tudo nessa vida são quimeras, tudo é fugaz. Mas passou, tudo passa nessa vida, né?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ESCREVENDO

ESCREVENDO
Na mais recente biografia da escritora Clarice Lispector publicada, ela assim definiu o seu íntimo ato de escrever:

É que escrever não me trouxe o que eu queria, isto é, paz. Minha literatura, não sendo de forma alguma uma catarse que me faria bem, não me serve como meio de libertação. Talvez de agora em diante eu não mais escreva, e apenas aprofunde em mim a vida. Ou talvez esse aprofundamento da vida me leve de novo a escrever. De nada sei.
CLARICE LISPECTOR citado por MOSER, Benjamin (2009) “Clarice, uma biografia”. SP: Cosac & Naify.

Assim como a escritora – e quem sou eu para me comparar com a grande Lispector? Escrevo para obter a minha paz, para me acalmar, um pouco, para me expressar, um muito. Escrevo porque não paro de pensar, escrevo porque leio muito, escrevo para esquecer um pouco as tristezas da vida, e olha que não são poucas.
Escrevo para domar esses demônios que insistem em aparecer quando estou pré-claro, lúcido – lembrem-se que Lúcifer era um anjo de luz; e quando a luminosidade é maior. Escrevo porque certos assuntos, certos tópicos são mais bem entendidos por escrito. Há certas coisas que ficam mais claras e definidas se estiverem expostas numa folha de papel. O discurso oral não se presta a esse serviço, às vezes, dependendo do que você quer dizer.
Mas, o papel aceita qualquer bobagem, e o que encanta o leitor é a palavra, a palavra bem escrita:

Um livro é um objeto físico num mundo de objeto físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então aprece o leitor certo, e as palavras – ou antes, a poesia por detrás das palavras, pois as palavras são meros símbolos – saltam para a vida, e temos um ressurreição das palavras.
BORGES, Jorge Luis (2000) “Esse Ofício do Verso”. SP: Cia das Letras.

Então, um texto, por mais bem escrito que esteja, por mais bem feito que seja; não passa de um amontoado de palavras, palavras essas que tem que atingir o centro, o plexo solar, a faringe. Calar a voz e acertar o coração, esse músculo que insiste em bater e se apaixonar. Mexer com os sistemas emocionais do cérebro do leitor que desatento folheia a revista, o livro, abre o site, lê o blog e navega...
A palavra mesmo atingindo a esse objetivo pelo qual é proposta tem que achar o leitor certo, porque a poesia tem que fluir por detrás das letras, e você sabe que enquanto há poesia há vida, ou melhor, esperança de vida!

DESPALAVRA
Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidades de sapo.
Daqui vem que todos os poetas ter qualidades de árvore.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas.
Daqui vem que todos os poetas devem aumentar o mundo em suas metáforas.
Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes, podem ser pré- musgos.
Daqui vem que os poetas podem compreender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, eflúvios e afeto.
MANOEL DE BARROS.

para Nanci.

INSTINTO ASSASSINO

INSTINTO ASSASSINO

Sentou no batente da porta da padaria ainda fechada. Apalpou os bolsos em busca do amassado maço de LM. Tirou um cigarro, o bateu na palma da mão, colocou nos lábios e o acendeu. Tragou profundamente e exalou a fumaça devagar em pequenos bafos.

Olhou o vai e vem lento das poucas pessoas; um empregado do bar da esquina lavava a calçada em uma busca inútil de tentar limpar os vestígios da noite; um casal de lésbicas adolescentes saía do clube underground abraçadas; a empregada dava o passeio matinal do pug arfante. Na banca de jornal o jornaleiro separava e arrumava os jornais do dia com as mesmas velhas notícias.

Tragou um pouco mais o cigarro e olhou o dia que se apresentava diante dele. O cansaço fazia com que ele esfregasse os olhos em busca de melhor enxergar, mas enxergar o que de melhor?

Nada conseguia ver de bom, ou interessante, naquele horizonte nublado, cinzento e sujo da megalópole. Olhou de novo a movimentação das pessoas, era verdade o dia insistia em nascer. O cigarro em sua boca já havia terminado. Jogou o toco de cigarro no chão e o esmigalhou com toda força e uma raiva incontida.

Enfiou de novo a mão no bolso e dessa vez sentiu a frieza do metal polido e inoxidável no bolso. Avaliou o peso e a circunferência do cilindro e o longo e frio cano de aço. Tocou uma por uma das seis balas mortíferas.

Parou pensativo, e viu que era o momento.

Era um homem desesperado e pronto a fazer qualquer besteira, até assassinar a sua esposa.